Diários-México

Cenotes, uma pequena parte da Lua na Terra

Maio 12, 2016

Uma lua nas Américas. Toda a região de Yucatán é um solo árido de uma rocha acinzenta cheia de crateras. E como todos sabem a grande diferença relativamente à Lua é que aqui existe água.

Marquei encontro com a Melanie na estação de autocarros. Melanie é argentina e viaja por 4 meses no México. Um país tão grande e tão diverso não pode ser visto num mês, não dá tempo para viver os lugares e criar laços. Ela como a maioria dos argentinos pegou na mochila e pôs pés à estrada.

Chegamos a Cuzamá com o pico do calor. Um aglomerado de motoretas com uma estrutura de madeira em forma de guarda-sol já esperavam os turistas. Numa povoação tão pequena, com metade dos jovens a viverem do turismo é difícil não se acotovelarem-se para ganharem o ganhão pão de uns dias. Negócio fechado. Seguimos em percalço dos cenotes pela primeira vez. Os maias consideravam estas formações sagradas e entradas para o inframundo. Seguimos sobre sol tórrido para Homún para conhecermos o mundo que se encontra abaixo. Num caminho de terra batida seguimos entre uma vegetação seca e árida. Este solo é poroso e filtra a água criando rios de água profundos de água límpida de azul turquesa. Uma extensão de grutas gigantesca, um outro mundo. E é assim, que entramos por um buraco circular com uma escada de madeira em linha reta até ao primeiro cenote. O cenote Tza Ujun Kat localiza-se numa região de cactos, o tal ouro verde que fez enriquecer toda a Yucatán. Um mergulho e seguimos para o próximo.

cenotes2

cenote Tza Ujun Kat

Dois irmãos de cor escura, corpo gasto do sol e do trabalho, acompanharam-nos na viagem. Carlos exibe poucos sorrisos e não aproveita para mergulhar connosco naquelas águas, tem cerca de 10 anos e parece-me que deixou a escola para trabalhar com o seu irmão. Chegamos ao cenote Yaxbakaltún para mais um mergulho. Melanie mergulha como se tratasse do primeiro, foi amor à primeira vista e dali não sai da água. Eu tinha-me apaixonado pelo primeiro e por isso depois de um mergulho subo e descanso nas redes que se encontravam debaixo de umas árvores. Tentava descansar mas o senhor fonseca, de Playa del Carmen, fazendo-me lembrar o meu pai, lá puxou conversa… Debaixo dos pinheiros, venho a descobrir que tem uma nora portuguesa e… foi o suficiente para me fazer sentir em família. Os membros da família a pouco e pouco foram saindo do cenote para preparar o pic-nic. Tacos com carne de porco bem à moda mexicana. Eram mais 10 e viajavam durante 3 semanas a visitar a família em diferentes pontos do México. Melanie chegou e já o convite e o pic-nic estavam servidos. Todos a confraternizar sobre as árvores numa generosidade genuína, fazendo-nos sentir família.

Pic-nic no cenote Yaxbakaltún

Pic-nic no cenote Yaxbakaltún

A barriga que já pedia almoço ficou de surpresa satisfeita. Seguimos para o terceiro cenote. Entramos por uma propriedade privada onde à entrada há um restaurante e logo à sua esquerda um pequeno buraco onde uma escada de madeira novamente desce em contracurvas sem avistar o que vamos encontrar abaixo. Mais um cenote, mais um mergulho. Relembro o Jorge me contava “Muitos deles foram descobertos quando as pessoas começavam a construir as suas casas. Um dia, um amigo, desejava construir um restaurante, contudo quando começaram as construções descobriram um cenote e dali o negócio modificou-se.” A maioria dos cenotes em toda a Yucatán são de exploração privada, salvo algumas excepções em que os cooperativas locais tomaram conta do negócio. Ao final da tarde, já estavam cansadas de tanto mergulho. Talvez a novidade estivesse a terminar.

Ao final do dia, o sol põe-se na estrada de regresso e aquele momento faz-me lembrar o Gonçalo Cadilhe “A lua pode esperar!”.

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