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Da Bolívia à fervilhante cidade de São Paulo

Junho 11, 2017
sampa grafitis

Atravessei a fronteira para o Brasil e tudo se transformou. As estradas passaram a ser autoestradas e o verde ganhou outra intensidade. A barreira do pó da terra ficou interdita à passagem no Pantanal. Os mogotes altos, os papagaios, os rios. Não me arrependi de viajar 21 horas de autocarro.

Entrei em São Paulo com a impressão de chegar a Lisboa. Os edifícios antigos, a calçada e as praças. O pastel de bacalhau, a empada de carne, o pastel de nata. A língua. Podia estar em Lisboa se não sentisse o calor intenso e húmido e a musicalidade do português.

Completei 8 meses de viagem e com um bilhete de regresso, o tempo começou a marcar passo à minha viagem. Arrependi-me deste feito assim que cheguei à Bolívia. Havia tanto para ver, descobrir e viver!

Cheguei a Santa Cruz de la Sierra e fui uma espécie de turista. Sai do hostel para calcorrear a cidade, parei na praça para sentir a atmosfera e procurei o mercado local para comer com cautela. O meu sistema gastrointestinal estava desorientado há mais de uma semana e já não sabia como contornar a situação! Estava na hora de sair da Bolívia. O meu corpo exigia!

E assim, pela noite dirigi-me à estação de autocarros. Um mega edifício escuro, velho e sujo. Multidões em filas para os mais diversos destinos. Jovens a vender salteñas pelos corredores. Vendedores a gritar alto o destino esperando que os clientes se aproximassem. A confusão ordenada instalada nos corredores. Embarquei pelas dez da noite e cheguei à fronteira pelas seis da manhã. Uma hora na fila a aguardar a abertura dos serviços de fronteiras. Em seguida, quase uma hora para carimbar a saída no passaporte. Depois, segui rapidamente para a fronteira brasileira. Porquê? A certeza de que iria demorar algumas horas para carimbar a entrada no brasil. Os polícias preenchiam as papeladas lentamente! Ao final de cerca de três horas na fila, de fazer amizades com quem se encontrava atrás e à frente. E, de por fim, levar com um piropo do polícia mais mal humorado no momento fucral do carimbo pintar mais uma folha no meu caderninho, sentei-me na esplanada. Quando o relógio completou as doze horas, o autocarro vermelho chegou à estação e as 21 horas de viagem iniciaram!

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Em viagem no Pantanal até São Paulo

O tempo na América Latina é lento, sem pressas, com paciência. Se estivesse na Europa desesperava com o tempo perdido! Aqui, as 21 horas de autocarro eram toleráveis! Com tempo para conhecer as pessoas, de trocar contactos, de travar uma sincera amizade. Havia tempo para dormir, escrever, ler um livro e comer.

No entanto, as duas últimas horas no trânsito à entrada de São Paulo acordaram-me para a ansiedade e a urgência do tempo! A cidade impõe um passo rápido, uma respiração ofegante e um relógio no punho!

Na estação de autocarros o frenesim de gente era alucinante. Mas o brasileiro quando caminha nunca tropeça na moça que vem em sentido oposto. Parece que samba quando caminha, tem ritmo, elegantemente contornam o obstáculo. Depois de um café e umas bolas de queijo, estava preparada para enfrentar o caos brasileiro.

Entrei no metro e tive a sensação de me encontrar em Lisboa. O português dançava na boca do povo. As conversas de futebol. As discussões da vizinha. Os episódios da novela. Que sensação estranha de estar tão longe de casa e ouvir a minha língua. Que doce alegria!

Saí no metro Paraíso, em plena Vila Mariana e desci a rua Eça de Queiroz. Familiaridade em cada rua, em cada palavra. Os edifícios altos iguais à baixa lisboeta. Virei a esquina. A rua coronel Oscar Porto. Um bairro burguês.  Aquela proximidade com Portugal do outro lado do mundo, depois de tantos meses a viajar, preenchia todos os poros da pele.

Ao inicio da tarde cheguei à famosa e glamorosa Avenida Paulista. Um reencontro de viajantes. Depois de mais de um mês, encontrei-me com Renato, no frenesim da vida paulista. Com uma garrafa de vinho portuguesa, assim abria a minha visita ao Brasil.

Estava na avenida mais paulista de São Paulo.  Outrora o centro de negócios. Na actualidade, o centro de arranha-céus, shoppings, museus e onde se senta e se sente a vida do paulistano.

A avenida Paulista foi inaugurada no dia 8 de dezembro de 1891, por iniciativa do engenheiro Joaquim Eugênio de Lima e do Dr. Clementino de Souza e Castro (na época Presidente do conselho de intendências da cidade de São Paulo, atual cargo de prefeito), para abrigar paulistas que desejavam adquirir seu espaço na cidade. Seu nome seria avenida das Acácias ou Prado de São Paulo, mas Lima declarou:

Será Avenida Paulista, em homenagem aos paulistas!

Wikipedia

A avenida Paulista teve e tem a sua esfera e a sua alma. A tarde avançou a um ritmo alucinante. Uma deambulação perdida, com música country na esquina, um pastel de nata e um café delta na Manteigaria de Lisboa, uma visita ao Museu de Arte de São Paulo (MASP), uma leitura pausada na livraria Cultura e um pastel de bacalhau num foodtruck. Sampa, o nome mais popular para São Paulo, é irreverente, cosmopolita, multicultural, sedutora.  Não é, com certeza, um amor de primeira vista. No inicio estranha-se, depois escuta-se a música de Caetano Veloso, e depois, a pouco e pouco contrói-se uma relação de amor-ódio.

livraria cultura

Livraria Cultura ao jeito paulista

 

Mas o dia não terminava aqui. No centro cultural Olido, Marcel e Thaís esperavam-nos para assistir a um documentário sobre o Coco A dança tradicional, contada de uma forma tão singela sobre a direcção de uma jovem brasileira branca, Joice Temple. As raízes profundas de uma cultura perdida nos confins do nordeste brasileiro. Um projeto composto por uma exposição fotográfica e um documentário de longa-metragem sobre o ritmo e a dança da cultura popular do coco. O Coletivo Ganzá percorreu seis estados do Nordeste: Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba e Ceará, registrando oito mestres e/ou grupos que apresentam o ritmo, e em cada grupo, variações do toque e da dança. Um bonito retrato da vida, da música e da velhice no nordeste brasileiro.

Ali, a assistência chorava, soltava gargalhadas e falava com emoção da música, do racismo, da cultura! Sem expectativas algumas sobre o Brasil, ficaria assim inebriada pelo entusiasmo vivo dos brasileiros.

A noite terminou no largo Paissandú, junto ao boteco Estrela, com todos a dançar, a beber chope e a bater papo. Num cenário escuro e quente. Um prédio alto em ruínas, grafitado e uma igreja com mendigos a dormir à porta. Mas nada disto apagava a alegria do povo brasileiro e a minha sensação alegre de voltar a casa.

Caminhos do Coco, em festa no largo Paissandú; Foto: Marcel Nascimento

 

Caminhos do Coco, em festa no largo Paissandú Foto: Marcel Nascimento

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