Diário - Nicarágua

Granada, entre conversas e passeios

Setembro 6, 2016

Granada apelava à vida como turista, às deambulações pela avenidas coloniais, ao charme e à luxúria. Ficava alojada entre a linha que separava a Granada colonial da Granada nica. E a conversa começava dentro de uma casa nica. Num espaço de um cigarro, Nicarágua era colocada na mesa fria e crua. Granada começa numa reflexão e terminava com um passeio.

Nicarágua é um país de contraste, de um lado um país politicamente difícil, de um outro lado um povo culto e com vontade de mudanças. Assim começava a minha conversa com Tony, numa pequena casa de alojamento gerida por uma família local com o nome do mais recente membro da família, a doce, sorridente e curiosa Emily. Tony mostrava-se receoso com o futuro turístico de Nicarágua devido à instabilidade política de Nicarágua com a aproximação das eleições presidenciais em Novembro. Ortega não autorizava a de observadores internacionais para as eleições levando nestes últimos dias à publicação de comunicados internacionais colocando um carimbo de insegurança à serena Nicarágua. Tony angustiava-se com a baixa do turismo que devia acontecer nos próximos meses e perguntava-me: “Sentes-te insegura?”, respondia-lhe com sinceridade: “Não! Nunca tive razões para recear!”. Tony acendia um cigarro e sentava-se na mesa do jardim para aniquilar a minha curiosidade.  “Eu e quase todos os nicas somos fãs e seguidores dos ideias do movimento sandinista, ele mudou a vida deste país, tirou-nos de uma ditadura longa”, demonstrava o sentimento saudosista do passado. “A educação e a saúde foram pontos chaves neste mandato, muitas escolas foram construídas, a saúde é boa e maioritariamente gratuita mas a economia não vai no melhor caminho e as relações internacionais, em especial com os Estados Unidos, não ajudam o desenvolvimento do país” Tony empolgava-se na conversa lamentando-se com o estado actual do país, a falta de liberdade de expressão da comunicação social, as dificuldades para a formação de novos grupos politicos e a falha das relações externas. Sofria com a falta de um partido de oposição forte, capaz de gerar mudança. O cigarro terminava e o seu filho entrava aos pulos contagiado de alegria. A conversa ficava por ali, apagada com um cigarro e resumida a umas cinzas.

Nicarágua ainda vive amaldiçoada com a fama de o país mais pobre da América Central. É um país seguro, em comparação aos vizinhos El Salvador e Honduras. Nicarágua é uma caixinha de tesouros, simples de viajar e com uma diversidade de paisagens, com cidades coloniais e culturais. Não há razões para evitar viajar por Nicarágua. Há um leque de ofertas turísticas ao alcance do bolso de qualquer turista.

Granada é a capital do turismo na Nicarágua. Na principal avenida os restaurantes, os bares, as galerias de arte e agências de viagem aglomeravam-se e a avenida era uma bela calçada aprumada. As casas coloniais charmosas e majestosas, de uma delicadeza em cada detalhe. E entrando em alguns dos restaurantes, os jardins coloniais embelezavam a atmosfera com elegância que se podia perder longas horas a desfrutar do ambiente. Dois quarteirões acima do parque central, encontrava-se a igreja La Mercede, com a melhor vista sobre a cidade. Junto aos sinos havia um pequeno corredor onde se podia observar os quatro pontos cardeais da cidade. Um jovem casal de nicas contemplava a vista panorâmica ao entardecer. O sol colocava-se no horizonte e à medida da sua descida o amarelo torrado da catedral de Granada tornava-se plácido, o azul do céu apagava lentamente o seu charme colonial.

Vista da igreja La Merce

Este era o lado turístico, mas a 3 quarteirões da praça principal, os locais davam movimento à cidade no mercado local. Podia comprar de tudo, legumes, carnes frescas com mosquitos a sobrevoar, peixes frescos e secos com sal, especiarias e bens de primeira necessidade. Num ambiente confuso, escuro e sujo, contudo com alguma simpatia. As mulheres vendiam em pequenas bancas improvisadas, popusas de queijo e de carne.  Mulheres mais velhas vendiam com os seus maridos em guarda, bolos caseiros e pão fresco. O tráfego automóvel perdia-se na confusão.

Angely recomendava-me o comedor mais apetitoso do quarteirão, a duas ruas abaixo do hostel. No primeiro dia que me sentava no restaurante azul e luminoso, duvidando da minha escolha a senhora que sentava na mesa ao lado sorridente dizia-me “É tudo bom, caseirinho!”, escolhia um prato de frango grelhado acompanhado de arroz, feijão, plátanos e salada. E assim, com simpatia e uma refeição de 3 euros, este seria o meu local de eleição nos próximos dias. A duas quadras do parque central, nas ruas turísticas uma refeição completa num restaurante bonito podia ascender aos 20 euros. E ali também, numa tarde de luxúria sentava-me no Garden rodeada de jardim, comia um prato típico com um toque de modernidade ao som da bossa nova. Estes momentos não são apenas para os turistas mas também para os viajantes. Uma cidade de contrastes.

Mercado local

Mercado local

Granada começava numa reflexão e terminava com um passeio. Ao final do dia, Granada arrumava o pó da rua, a agitação apagava-se num ápice e apenas os turistas animavam a Granada colonial.

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