Diários - Perú, Perú

Huaraz, na cordilheira branca do Perú

Dezembro 19, 2016

Huaraz era apenas o ponto de partida para todos os viajantes que desejavam conhecer a cordilheira branca. Uma cidade a 3050 metros de altitude relativamente ao nível do mar, com um casario de tijolo recoberto de pó. Depois de uma viagem de curvas e contra curvas, a primeira impressão seria de chegar a uma cidade fria e pobre. Mais tarde, a segunda impressão era de uma cidade fria, pobre, caótica e energética. A principal avenida da cidade perfilava todos os restaurantes, lojas de roupa e supermercados de qualidade. Atravessando a avenida, as ruas estreitavam, os peruanos carregavam carga às costas, o lixo juntava-se nos passeios e o pó torna-se mais visível. A poucos quarteirões da avenida principal encontrava um refúgio, escondido atrás de uma avenida principal, passado de boca em boca entre viajantes e que toda a vizinhança conhecia. Uma casa cheia de viajantes, reforço viajantes e não turistas! Dois franceses a viajar de mota pela América de Sul, um casal de argentinos a viajar há meses, um argentino nómade a viver por tempo indeterminado em Huaraz, um polaco a viajar por dois anos e eu a única mulher a viajar sozinha! Na América Latina cruzava-me com viajantes, com histórias peculiares, com itinerários curiosos, com aventuras extraordinárias.

A principal avenida de Huaraz

Huaraz era uma cidade a visitar para os amantes de montanhismo. Na base da cordilheira branca dedicaria os próximos dias a realizar alguns dos famosos trekkings do Perú.

 

Chavin de Hantar

As ruínas de Chavin foram construídas entre 1500 e 400 AC, eram o mais importante legado da cultura chavin e uma das ruínas mais antigas do Perú. Para além da visita a uma das mais antigas civilizações peruanas, o trajeto até à aldeia de Chavin era um passeio entre montanhas de perder o fôlego. O céu azul enriquecia as cores das lagoas e o amarelo tórrido dos vales. Situadas a 109 km de Huaraz, na cordilheira Conchucos foram descobertas pelo arqueólogo Julio Tello em 1919, sendo consideradas património mundial da UNESCO em 1985.

Lago Querococha

Ruínas de Chavin de Huantar

A arquitectura em cruz dentro das ruínas de Chavín

Glaciar Pastoruri

A sul de Huaraz, na reserva Huascaran, é possível visitar o glaciar Pastoruri. No passado os nevados eram longos, densos e inacessíveis, poucos se atreviam a visitá-lo. Com o resultado das alterações climáticas hoje é possível com uma hora de caminhada chegar ao glaciar Pastoruri a uma altitude de 5200 metros. Era impressionante a paisagem e era aterradora a percepção do quanto a natureza estava a mudar. A viagem colocava frente a um dos desastres vivos do aquecimento global.

A caminhada, no total 2 horas com paragens e cerca de 3 quilómetros, não era de grande dificuldade mas a altitude condicionava o oxigénio na atmosfera trazendo os seus efeitos a vários turistas. O guia Águilla com 70 anos era veloz mas as jovens peruanas vindas de Lima começavam a sentir cefaleias e tonturas ao chegar ao topo. De nada valeu o chá de coca matinal nem as folhas de coca que mascavam durante a subida. Retornariam à base montadas a cavalo e teriam de aguardar que o oxigénio preenchesse todas as suas células.

Puya Ramondi, com cerca de 12 metros de altura

Glaciar Pastoruri

Glaciar Pastoruri

Laguna 69

Depois de me ambientar à altitude chegava a hora de me aventurar num trekking de 14 km até ao pico de 4600 metros para ver uma das lagunas mais bonitas do Perú, a Laguna 69.

A 3 horas de Huaraz entrávamos no Parque Huascaran, passando pelos lagos turquesas Langanuco, para iniciar a caminhada em Demanda. O trilho iniciava nas margens de um rio e seguiria por trilhos verdes e rochosos até ao monte Chacraraju. Ao longo do trilho observamos os pastos, as vacas nos lugares mais inóspitos, casas incas, os nevados nos cumes das montanhas e árvores em desfolhagem. A paisagem surpreendia a passo e passo, até que… finalmente chegávamos ao final de 4 horas de caminhada ao destino. A lagoa 69 de águas gélidas de cor turquesa, com os nevados a circulá-la e um céu celeste contrastando com o azul da lagoa. Uma surpreendente paisagem com uma vaca a beber água nas bordas da lagoa. O sacrifício da caminhada era naquele momento compensado por um breve silêncio colectivo diante de uma das jóias da natureza peruana.

Laguna 69

Laguna 69

Laguna 69

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1 Comentário

  • Reply A montanha das sete cores, a mais recente descoberta do Perú – Lookingaround Junho 8, 2017 at 15:42

    […] as alterações climáticas espelhadas na natureza. Depois de assistir ao desgelo das montanhas em Huaraz, chegava à montanha das sete cores. Uma caminhada entre os vales rosados e verdejantes da chamada […]

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