Diário - Nicarágua

Na Laguna de Apoyo numa festa quinzenera

Setembro 9, 2016

A Laguna de Apoyo, a poucos quilómetros de Granada, é um refúgio para turistas e nicas. Este lago é o resultado de uma cratera vulcânica e está rodeado de uma montanha alta onde vivem milhares de espécies, desde macacos, borboletas até aves de rapina e animais rastejantes. Em redor do lago há uma pequena comunidade local, vários hóteis e casas privadas. Passaria os próximos dias em casa de Carolina, ao abrigo do projeto Coco Mango.

Chegava pela tarde junto ao lago, um bosque cerrado a desenhar as curvas e o som dos macacos-aranhas a uma distância longínqua, suficiente para não os avistar. O caminho curvilíneo entre o lago e a selva levava-me à casa de Carolina. Ali, ela me esperava com os seus três filhos: Celeste, Mario e Wendy. Uma casa grande de linhas azuis e brancas a poucos metros da água. Uma cozinha fumada do fogão tradicional de lenha. Uns quartos simples para toda a família e um alpendre para as refeições e os convívios diários. Carolina recebia-me de braços abertos, um sorriso sereno e um convite para uma festa quinzenera.

Família de Carolina

Família de Carolina

Saíamos para uma festa depois de toda a família se aprontar delicadamente para a circunstância. A mãe acompanhada dos seus 3 filhos de 13, 15 e 21 anos e eu a sentir-me a sua filha mais velha nesta procissão bem arranjada. Chegávamos ao topo da colina e deparávamo-nos com um largo bem enfeitado de balões azuis e brancos e uma princesa de vestido cor azul e uma coroa dourada a dar brilho aos cabelos longos encaracolados. Com um sorriso recebia os convidados e a com as regras de etiqueta bem apurada recebia os presentes de bom grado e encaminhava os convidados à festa. De um lado, a mesa de festa com a família próxima. No alpendre da casa uma mesa decorada de cores azuis e brancos cheia de bolos e ao lado direito uma caixa onde se colocava todos os presentes. Também aí se podia ver as fotos da menina desde a sua infância. E daí, uma escadaria encaminhava os convidados ao largo da festa onde o dj iria colocar a música em ritmos latinos. A pouco e pouco o largo da festa se enchia de convidados.

Os mariachas entravam para cantar melodias à jovem que era apresentada à sociedade. O seu olhar era terno e tímido. Envergonhada perante todos os convidados mas mantendo sempre a postura que obrigava o dia. Este era o dia mais importante da sua vida, uma festa sem igual. O baile era aberto com a valsa iniciada com o seu pai, as damas faziam um círculo para dar romance ao cenário. Depois da primeira dança todos se juntavam à festa e os ritmos latinos tornavam a pista de dança mais alegre.

Valsa de abertura do baile

Valsa de abertura do baile

Entre comida e uns tragos de run iniciava-me na dança. A minha cor, ainda que morena, não disfarçava que era uma estrangeira no meio do povo local. E apenas, mais um loiro de pele clara se juntava à festa. Um canadiano que vivia há vários anos na região gerindo um pequeno hotel. Seria mais local que eu e conhecia bem os membros da família. Era tão notória a minha presença que a certo momento, o dj já me dedicava músicas e me cumprimentava do alto do palco. Não conseguia passar despercebida na festa. Um pé, dois pés, um à frente e outro atrás, à esquerda e à direita. A festa prometia. Wendy ajeitava o cabelo e procurava o seu par de dança. Celeste e Raquel dançavam com todas as linhas do corpo lançando alguns olhares provocantes. Carlos ainda muito jovem divertia-se com o primo e fazia piada do jeito feminino das irmãs naquela noite. Carolina dançava com as filhas mas sempre sem se desleixar do seu papel protector de mãe. O ritmo encaixava-me na festa lentamente e quando já trocava bens os passos… Carolina chamava toda a família a regressar a casa.

A festa terminava ainda antes da meia-noite. Carolina mantinha o respeito perante a comunidade e também imponha seriedade e postura a todos os seus filhos. E neste sentido de mãe ainda era notório como se divertia com os filhos e como eles partilhavam uma amizade simples e sincera. Este seria o inicio da minha viagem à Laguna de Apoyo na casa da Carolina.

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