Diários-Portugal

Porto em época de santos populares

Outubro 1, 2015

Em mês de Santos Populares visitar o Porto não está na moda, está mesmo popular. Entre ruas, ruelas e vielas os turistas circulam pela cidade em modo de rusga são joanina e eu misturei-me com eles.
Segui em jeito de rusga, como se uma noite de São João se tratasse, a partir do grande centro de vida noturna, a Rua Galerias de Paris. Nessa rua repleta de bares noturnos, naquele domingo, apenas se aproveitavam as esplanadas onde o sol ia espreitando e colorindo o velho casario caiado de azulejos doutros tempos. Entrei, porventura, no restaurante-bar Galerias de Paris como entrasse numa máquina do tempo. O antigo armazém de retalhos encheu-se de montras com velharias, carros e bonecas, violas e trompetes, balanças e candeeiros, garrafões de vidro verde-musgo e almudes de bronze, um autêntico baú vivo da casa dos nossos avós. Foi difícil sair dali mas, como em qualquer rusga a romaria é em plena rua em movimento. E é já no fim da rua Galerias de Paris que um novo, moderno e contemporâneo edifício ergueu a velha Praça de Lisboa. Ela é hoje um espaço de ligação entre duas referências patrimoniais da cidade, a Torre dos Clérigos e a Livraria Lelo. Ali, encontram-se lojas de referência internacional e nacional, restaurantes de alto gabarito e uma esplanada envolta de um jardim de oliveiras num “telhado” com vista privilegiada para a Torre dos Clérigos. Caminhei, desfrutei do tempo e da vista magnífica sobre a torre que comemorou com renovações este ano, 250 anos. A rusga continuou mas nesta calçada cinzenta o tempo manteve-se inerte. Os miúdos jogavam à bola, as senhoras apanhavam sol animadas com conversas da vida alheia e os velhos descansavam no Jardim da Cordoaria. Este descanso de domingo à tarde percorria todo o movimento dos passeios. Mais abaixo nas Virtudes, entre as árvores frondosas, via-se jovens casais em modo de pic-nic com mantas coloridas, meninas em roupas dos anos setenta a lerem livros da actualidade, jovens de estilo gótico em discussões filosóficas ao sabor de umas cervejolas, e claro, o burburinho dos turistas a tirarem selfies com o rio douro e os socalcos do Jardim das Virtudes como fundo. Na esquina contornei o cheirinho a pregos prontos a sair e o molho de uma francesinha a ser preparada para o jantar. Segui a rusga de turistas e entre ruas, ruelas, calçadas sujas e gastas, entre serpentinas amarelas, verdes, vermelhas e cascatas são joaninas, cheguei à Rua dos Bacalhoeiros na Ribeira. Cheguei e ali estava a Ponte D. Luís I. Dois tabuleiros entre duas cidades, uma ferragem cinzenta em traços oblíquos e uma arcada redundante, onde o sol esbate de uma forma única como que reflectindo cor ao velho casario tão característico desta cidade. A Rua do Bacalhoeiro é uma autêntico miradouro mas, para além dela, toda a Ribeira é um emaranhado de ruelas onde encoam uns “bitaites” à moda do porto. Turistas de todas as raças, várias línguas e vários trajes. Com certeza, esta gente confunde os olhos destes tripeiros que por aqui vivem e se conhecem melhor que ninguém. “Olha-me este!” “C’um caneco”, os turistas por ali e acolá sentam-se nas esplanadas, porque nas tascas os rostos fechados não fazem amigos. E assim como os turistas, sentei-me na espalanada da Casa das Iscas para saborear os pastéis de farinha de trigo com umas boas lascas de bacalhau, fritas na hora neste boteco de três irmãos de velha idade e de rosto cansado pela amargura da vida. Naquele final de tarde de domingo, o lugar de esplanada frente à Ponte D. Luís I era o local ideal para assistir à passagem das romarias, mas na noite de São João a pequena esplanada das iscas não terá sossego das marteladas e do alho-porro. As rusgas da joana, da maria, do joão vão começar a romaria na Ribeira e seguir até à praia, como manda a tradição.

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1 Comment

  • Reply Filipe | Alma de Viajante Junho 23, 2016 at 21:06

    É hoje o grande dia 🙂
    Aqui fica um roteiro para uma tradicional noite de São João no Porto, com muitas sardinhas, cerveja, marteladas e bailaricos.
    Força com esse blog!

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