Brasil, Diários - Brasil

Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa

Julho 16, 2017

Chegava ao Rio de Janeiro. A cidade adjectivada de maravilhosa, de apaixonante e mágica. A cidade que pode atravessar a vida. O lugar que Deus criou em semelhança ao seu sonho mais bonito. À parte da hipérbole sentimental que corre o mundo chegava ao Rio para testemunhar a sua audácia. Até chegar ao Rio de Janeiro não acreditava em amores à primeira vista. Mas ali, tudo é possível e tudo pode acontecer em instantes.

O Rio de Janeiro veste-se de prédios altos com gravata ao pescoço e calça chileno de praia. Acorda cedo com o sol a espreitar no morro e atravessa o verde e os rios de águas da cidade entre dez longas paragens no ônibus. Almoça em duas garfadas na favela, janta no restaurante chique, toma chope no boteco da esquina e samba até raiar na disco granfina. É incrível como a música atravessa a vida. Não há relógios porque não se pode perder tempo a dormir, só há tempo para viver. E viver apaixonadamente.

 

Alexandra Lucas Coelho vê no Rio de Janeiro uma alegria que nasce da tristeza de encarar a violência. Eu diria, que a alegria só existe pela imponência das ondas que quebram na areia, pelo esmagamento do verde tropical que sobe aos morros e pela atracção escura e profusa das lagoas.  O Rio de Janeiro é a cidade maravilhosa por obra de Deus. Quando ele desenhou o mar, a selva e os rios, desenhou o paraíso. Sim, o Rio de Janeiro poderia ser o paraíso se a mão do Homem não estrangulasse cada cruzamento da cidade.

Lagoa Rodrigues de Freitas, Ipanema

Chegava ao Rio de Janeiro e o sol tomava conta da calçada. Aterrava em Ipanema, o coração da cidade. Numa deambulação alheia entre as ruas empresariais, comerciais e residenciais. Com um olhar pausado nas montras de biquinis sensuais e um olhar adentro em várias galerias de arte. Do coração e através das suas artérias chegava à Lagoa Rodrigues de Freitas. Quem ama a letra e a música de Vinicius de Moraes e Tom Jobim arrepia com a moça de corpo dourado, queimado pelo sol de Ipanema, que caminha de biquini, óculos de sol, chinelo no pé e short a mostrar a bochecha da bunda. O seu balanço é mais que um poema! O amor aconteceu naquelas artérias entre a lagoa Rodrigues de Freitas e a praia de Ipanema. O ambiente descontraído, o sal no corpo que leva um sorriso ao lábios, o corpo mestiço que deixa a tristeza sair e tatua na pele a alegria. O Rio de Janeiro é a coisa mais linda que eu já vi passar!

Carioca tem escritório e cozinha na praia

Um copo de açaí gelado, com topping de leite condensado e frutas salteadas. Um mergulho no mar. Uma bola no pé. Uma caipirinha fresca a escorregar na garganta. O corpo estendido na toalha a descansar com os olhos semi-cerrados. A música a pular nos grãos de areia. A vida explode em cada metro quadrado da praia de Ipanema. Não há tempo para dormir, nem sequer descansar. O carioca tem o escritório e a casa montados na praia. Ele vive na linha entre o calçadão e o mar.

Num breve instante, e mais uma vez, tinha a sensação que o Brasil fazia parte de mim e que corrigia o meu passo inseguro na rua. O Rio modificava-me. Sou fruto de uma mistura de experiências, de sentimentos e de lugares. E quando olhava-me ao espelho no Rio de Janeiro via em mim uma cor de pele mais escura, um sorriso mais aberto e uma energia que me fazia pedalar todo o dia. Amava o Rio pela alegria que ele imprimia em mim!

Na praia de Ipanema

Depois de fazer deslizar um vestido no corpo estava pronta para sair para a noite de Ipanema. Aterrava directamente para a festa carioca com o Marcelo e a Mel. Bem ao jeito português, petiscos na rua, vinho fresco e papo gostoso. O canastra bar na rua Jangadeiros juntava milhares de turistas e cariocas em shorts e t-shirt. Numa atmosfera leve, descontraída e elegante. Os olhos perdiam-se com a sensualidade que cruzava. Esqueciam que a favela Cantagalo estava ali atrás e que a delinquência poderia descer a o morro. Num grupo de amigos, Inês e Roberto (casal luso-brasileiro) recordavam memórias de uma paixão de Verão. Ali, com o calor de Dezembro, bebiam o melhor do Brasil. Falavam das saudades, da insegurança e de um amor-ódio intransigente que vive intrinsecamente em todos que partem do Rio de Janeiro. A viver em Portugal visitavam o Rio de Janeiro com o mesmo amor de sempre!

Cheguei depois do Mundial do Futebol e até dos Jogos Olímpicos, a malha urbana vivia um período pacífico mas com a mesma insegurança de sempre. No meu olhar de viajante a ameaça não existia. Acreditava que a minha cor de pele modificara-se. A minha percepção do perigo na América Latina tinha rendido tréguas e vivia no auge da ilusão de que poderia mestiçar-me com qualquer nacionalidade do mundo. Certo ou errado, vivi feliz e sem razões para pensar em contrário.

Em contagem decrescente, estava preparada para percorrer todas as praias desde Copacabana até à Gávea, visitar os ícones turísticos como o Corcovado e o Pão de Açúcar, infiltrar-me nas malhas das favelas da Rocinha, do Alemão ou até mesmo na Cidade de Deus de Fernando Meireles, perder-me nos bairros boémios da Lapa e de Santa Teresa entre artistas e curiosos do hippie-chic, sambar entre cariocas, ver o pôr-de-sol no Arpoador, ver o Rio de Janeiro em asa delta, andar de bicicleta de uma ponta a outra, andar de bonde em Santa Teresa, subir as escadas de Selarón. Tinha a certeza que o Rio de janeiro foi  um amor de primeira vista e que a paixão era avassaladora!

Facebook Comments

You Might Also Like

1 Comment

  • Reply Filipe Morato Gomes Julho 17, 2017 at 17:10

    Aproveita e dá um salto a Ilha Grande. Nunca escrevi sobre a ilha, mas é perfeita para quem gosta das coisas simples da vida!!!

  • Deixe um comentário