Diários - Brasil

Sampa do Caetano contado pela Helena

Junho 16, 2017

Conhecem a sua letra?

Alguma coisa acontece no meu coração

Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi

Da dura poesia concreta de tuas esquinas

Da deselegância discreta de tuas meninas

Ainda não havia para mim Rita Lee

A tua mais completa tradução

Alguma coisa acontece no meu coração

Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto

Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto

É que Narciso acha feio o que não é espelho

E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho

Nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo

Afasto o que não conheço

E quem vende outro sonho feliz de cidade

Aprende depressa a chamar-te de realidade

Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas

Da força da grana que ergue e destrói coisas belas

Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas

Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços

Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba

Mais possível novo quilombo de Zumbi

E os novos baianos passeiam na tua garoa

E novos baianos te podem curtir numa boa

Caetano Veloso

Sabem a história dela?

Ah, eu vou contar … vai que ninguém sabe, e se souber, fica o registo!

Antes de qualquer romantismo inicial, a primeira realidade sobre Sampa foi que pediram a Caetano para escrever um depoimento sobre a cidade de São Paulo. Ele, em vez disso, decidiu escrever uma música e esta letra homenageando a Selva de Pedra.

E aí, surge o artista que volta nas memórias e relembra o dia que chegou a Sampa, termo carinhoso pelo qual é conhecida. Então …

Caetano veio da Bahia até São Paulo, pela primeira vez, quando tinha uns eternos vinte e três anos acompanhado de Bethânia, a sua irmã mais nova.

No momento em que desembarcou na cidade, ele depara-se com o cruzamento das avenidas Ipiranga e São Joao, em pleno centro, e ficou comovido com o que viu.

Ali, estavam os edifícios modernos e as sedes das grandes empresas, reforçando o status da grande metrópole paulista. Os novíssimos edifícios o Copan, do Oscar Niemeyer, no número 200, e o Circolo Italiano, de Franz Heep, no número 344, exibiam-se como gigantescas obras de arte.

Assustado com o número de pessoas que circulavam pela região, com a poluição e com a quantidade de migrantes que desembarcavam, como ele, o baiano conta os primeiros dias de dificuldade que passou na cidade.

A canção é repleta de citações e homenagens a São Paulo e seus personagens, a começar por Rita Lee, eleita a sua mais completa tradução e sua banda, Os Mutantes, responsáveis pela face mais rock’n roll do tropicalismo e da música popular brasileira.

E por aí segue, sempre referindo-se aos grandes detalhes da cidade da garoa que a definem de lá até cá.

Mas Caetano define-se também a si mesmo como um leonino narcisista que ao encarar a diferença se choca pois não se vê a si mesmo. Porém, nos últimos versos, o cantor baiano rende-se a São Paulo!

Eu, amando Caê, só posso como ele amar São Paulo e foi assim … uma história de amor à primeira vista!

mh

Quem quiser regressar a 1978, vai-se deliciar a ver e ouvir Caetano a falar de tudo um pouco e de Sampa também.

Maria Helena Matos

Sabem a história da Helena?

A história da Helena começou na travessia atlântica de navio até ao Brasil

 

Viajei pelo Brasil através das palavras da Helena. Quem é a Helena? Uma portuense, mulher com letras maiúsculas, mãe e empreendedora. Mais. Uma amiga da escrita, com quem partilho o sonho de viajar, com quem duplico os sonhos de viagem, com quem aprendi a amar o Brasil e apreendo a ser mais feminina, mulher e lutadora.

Quando lembro da Helena, lembro das suas palavras:

Quando a viagem começa dentro de ti, o mundo aguarda-te.

Quando lembro da Helena, lembro-me da sua força motriz e do quanto ela é em mim!

Quando lembro da Helena,  perco o medo, levanto a cabeça, respiro fundo e sigo em frente!

Na minha viagem ao Brasil não poderia deixar de homenagear o tanto que ela é na minha vida e na minha escrita.

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