Diários-Cuba

Trinidad, na cidade colonial cubana

Julho 9, 2016

Primeiro de Maio nas ruas de Trinidad. O dia do trabalhador em Trinidad festejava-me com pompa e circunstância em quase todas as ruas da cidade. Começava pela manhã a manifestação do 1º Maio, gente de todas as terras juntava-se na praça para viver um dos dias mais gloriosos de Cuba.

Em modo de desfile, grupos de folclore vestidos de branco, lenços vermelhos e chapéus de palha juntavam-se na avenida principal. O ritmo a abanar o chão empedrado de Trinidad. Um chão desalinhado sinal de que a música causava ranhuras na terra. Cartazes de cartão velho, aquele castanho mostarda onde pintavam a cores vermelhas frases revolucionárias “Por Cuba: Unidade y Compromisso” ou “Abajo el Bloqueo“. Velhos segurando cartazes comunistas com as imagens de Che estampadas. Trinidad também vivia no tempo pretérito perfeito. Enquanto que em Havana mais de 600 mil pessoas se juntavam na praça da revolução apoiando a actualização do modelo económico. Em Havana, vive momentos de mudança lenta.

Cartazes no 1º Maio

Cartazes no 1º Maio

A vida continua com os pés a dançar. Na Praça Mayor, o povo amontoava-se junto aos diversos palcos que iam colocando reggaeton e os cubanos dançavam com rum. Começava cedo a festa e alongava-se por todo o dia. Na praça, com rum e reggaeton até cair o corpo e a noite.

Longe da animação da praça as ruas levavam-me até ao largo da igreja Paroquial Mayor. Um ambiente mais calmo onde os velhos se encontravam sentados à porta das casas a fumar puros (charutos cubanos).  Num largo pequeno, dois velhos sentados à porta esperavam turistas para excursões a burro pela velha Trinidad. Ao lado, debaixo de uma sombra dois cubanos tocavam guitarras e os turistas dançavam como se não houvesse amanhã. Mais adiante, um grupo de trabalhadores tocavam tambores, jovens exibindo um calor extenuante, colavam-se aos corpos masculinos. Um jovem exibia uma lagosta enquanto o grupo ia picando o marisco e bebendo um trago de rum.

Salsa numa pequena praceta de Trinidad

Salsa numa pequena praceta de Trinidad

Trinidad foi fundada em 1514 e é uma das cidades coloniais mais bem conservadas de Cuba, daí que adquirisse o título Património da Unesco em 1988. À parte destas titulações e do velho centro histórico extremamente colorido, há o Vale de los  Engenios, onde co-habitam quintas gigantes de produção de cana de açúcar, numa extensão de mais de 200km. Três densos vales San Luis, Santa Rosa e Meyer, onde mais de 300 000 escravos  foram mantidos até ao final do séc XIX pelos espanhóis colonialistas que enriqueciam com este ouro vegetal. Da torre de Manaca Iznaga podia-se alcançar todo o vale e apreciar a imensidão dos verdes vales. De Trinidad a Manaca existe um velho comboio movido a vapor que liga as duas regiões. O tempo continuava perdido.

E depois de me perder no tempo, regressava a Trinidad para me perder nos degraus da Casa da Música. Numa grande e longa escadaria, velha e gasta, a música sobia os degraus e juntava todas as idades para ouvir e dançar salsa. Conhecia Juán, um cardiologista que nos falava ao coração. Os seus 60 anos eram juvenis, com alegria descontraída sapateava com delicadeza. Frases melódicas contadas a três tempos ao ritmo da música. Um homem apaixonante, que fala de amor pela vida e que vive a vida intensamente com amor. Ele sabia falar ao coração e vivia com coração.

Os pés subiam e desciam sem cansar e sem tempo para extenuar. Cuba continuava a encantar, aqui neste tesouro colonial perdido.

 

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