Diários-México

Valladolid com mais encanto

Maio 18, 2016

Ao final de algum tempo de viagem apercebo-me que gosto mais de cidades pequenas. As pessoas são mais genuínas, têm tempo para dar-se a conhecer e sorriem. Para além disso, o céu é mais limpo, o ar é mais saudável e as ruas mais agradáveis para andar perdida sem receio.

Saio de Mérida, contorno ChiChén Itzá e chego pela tarde a Valladolid. Assim que desço as escadas do autocarro temperado com ar condicionando, os 20 kg de bagagem parecem mais pesados com o ar quente e húmido que me recebe a cidade.  A poucos metros da estação de autocarros finalmente chego a Candelaria. Um pequeno hostel num casa tradicional localizado numa pequena praça onde existe uma biblioteca, uns restaurantes e uma igreja. Ana recebeu-me com um sorriso contagiante, forma simples que num instante envolve os viajantes. Uma casa colorida com um logradouro cheio de plantas e umas redes tropicais para descansar. Ana tem uma pele morena e uns caracóis quase tipo carapinha, não me fariam adivinhar que fosse mãe daquele pequeno rapaz loiro e de olhos azuis que estava sentado no sofá a ver desenhos animados colado à televisão. Vive sózinha com o seu filho e decidiu  viver junto da sua família em Valladolid. Uma cidade pequena e com gente de todos os pontos do mundo.

Hostel Candelaria

Hostel Candelaria

Calcorreei a cidade de uma ponta a outra. Mais uma vez uma cidade colonial com casas coloridas de amarelo, azul, laranja e verde. O frenesim de Valladolid acontece no parque central. Um jardim central onde se concentram restaurantes e a catedral. O bairro Sisal na parte este da cidade é uma passeio em 3 tempos. Fotografar as casas, observar os idosos sentados no alpendre de casa a ler o jornal ou a fazer a sesta e descansar na praça onde os jovens iniciam os seus primeiros namoriscos. Numa diagonal do bairro chega-se ao ex-convento san benardino de siena. Uma praça ampla com jardim sem sombra. Dali entra-se pela calzada los frailes, abrilhantada com alguns hotéis, uma lojas de artesanato contemporâneo e uma barberia antiga com toque de modernidade, tal e qual como acontece na Europa. dali são dois passos até encontrar de novo a catedral. Chego ali perto das 4 horas e sento-me à sombra com os mexicanos nos bancos do jardim a comer gelados. Passado meia hora, apercebo-me que a catedral finalmente abre as portas e uns mendigos se aconchegam nos degraus da entrada. Na praça, alguns carros de tacos, de gelados e crepes aprontando-se no jardim. Eram perto das 5 horas da tarde quando os autocarros chegavam à praça, paravam junto à porta da catedral e os turistas desciam como formigas, às centenas, para visitar a cidade. De câmera em punho a disparar por todo o lado, de calções e chinelos da moda e chapéus de palha. Depois de uma hora a praça esvaziava-se de turistas, os autocarros partiam para Cacún e outros locais da Riviera Maia e a cidade restabelecia a sua monotonia habitual.

Catedral em Valladolid

Catedral em Valladolid

Os turistas desapareceram e a chuva tropical chegou depois. Trovões, vento e chuva intensa como se o dia acabasse naquele momento. O dia fez-se noite e a cidade ficou sem luz. Uma hora de chuva foi suficiente para as ruas ficasseem inundadas.Todo o movimento manteve-se após a chuva tropical. Sereno. A chuva abriu conversa com madrileno José. Ao final de 4 meses no México definia a sua relação com o México de amor e ódio. Ele que viveu na selva de Palenque e que conheceu bem as aldeias de San Cristobal, sentia um desprezo enorme pelo sistema político e defendia com moderadação o movimento zapatista. Viveu histórias de sofrimento com membros de algumas aldeias que viviam deslocadas dentro do seu próprio país. “Estive com uma jovem que me contava que tinha sido despejada da sua casa pela polícia” e reforçava “Contaram em primeira pessoa, de olhos cheio de lágrimas” e “Eles só queriam uma casa e uma terra onde pudessem cultivar”. Viveu com receio numa das manisfestações de defesa do zapatismo em San Cristobal e viu situações de conflito bem perto. “Uma criança no meio da manifestação estava a acompanhar-me mas não me apercebi da situação de perigo até que membros da organização agarraram na criança à força e em choro do meio do povo. Só mais tarde me contaram que ela teria uma câmera e que serviria para gravar rostos de manifestantes para posteriormente serem alvo de horrores”. Mas ao mesmo tempo amava a natureza tão diversificada e densa da selva de Palenque, viveu perto das comunidades maias e assistiu à riqueza da medicina natural. Descobriu depois praias, cenotes, mexicanos com uma grande sabedoria e sentiu-se feliz entre viajantes. Ao final deste tempo, estava de regresso a Espanha com novos projetos. Ele que era assistente social e desejava descansar do seu quotidiano, não conseguiu deixar de viver com intensidade os problemas sociais do México. Nestes últimos dias em Valladolid experienciava da revolta mexicana aos espanhóis, uma diarreia de 3 dias, como costumavam brincar os mexicanos.

Valladolid tem um recanto de paz e no jardim da caldelaria o tempo é lento e suave. À volta mesa, os viajantes vão contando as suas peripécias mexicanas. Jovens, adultos e alguns mais velhos partilhavam a viagem ao sabor da chuva. O tempo não tem pressa nesta pequena cidade de Valladolid.

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